domingo, 19 de agosto de 2012

O enigma de Sousândrade

Nova edição do épico ‘O Guesa’, organizada por Luiza Lobo, esclarece e mapeia o percurso fragmentado da vida e da obra do poeta maranhense
Em fragmentos, conforme publicada entre os anos de 1867 e 1884, ou completa, como na edição que chega às livrarias organizada pela pesquisadora Luiza Lobo, a narrativa épica de “O Guesa” (Ponteio), de Joaquim de Sousa Andrade ou Sousândrade (1832-1902), não escapa do estigma enigmático que recai sobre a obra e o próprio autor.
— É a maldição de Sousândrade! — exclama Luiza, com a certeza de quem se dedica a mapear os poemas há quase 40 anos, em obras como “Tradição e ruptura: O Guesa de Sousândrade” (1979) e “Épica e modernidade em Sousândrade” (7Letras). — Sempre há algo para reparar, um fragmento para revisar. “O Guesa” é uma obra inacabada — complementa ela, que se juntará aos professores Luiz Carlos do Rego Lima e Caio Cesar Christiano para debater a obra no dia 24, às 16h, na Fundação Casa de Rui Barbosa.

    O enigma da obra está na quantidade de cantos, fragmentos, revisões e adições que o autor maranhense publicou e alterou ao longo de duas décadas. Luiza observa que a forma como foi escrita — em quartetos de decassílabos — e as impressões a conta-gotas dificultaram a compreensão da obra por completo. Até o título, que inicialmente era “O Guesa errante”, foi mudado. A versão atualizada, revisada pelo especialista em Sousândrade Jomar de Moraes, foi baseada na edição definitiva de “O Guesa”, publicada na Inglaterra em 1884, e traz introdução, notas, glossário e cronologia. Dentre os 13 cantos, as partes VII, XII e os XIII foram deixadas incompletas pelo próprio autor e permanecem nesta edição.
    O primeiro fragmento foi publicado em 1867, e obra continuou sendo impressa aos pedaços até 1884. No entanto, esta data de publicação também é controversa. Na obra de referência dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos sobre o maranhense, “ReVisão de Sousândrade” (1964), consta a data de 1888. Mas Luiza encontrou, na biblioteca de Nova York, uma errata ao “Guesa” já completo datada de 1887.
— Concluí que ele terminou a obra em 1884, enviou para publicação em Londres e em 1885 já estava de volta ao Maranhão — afirma Luiza, argumentando que a confusão com a data de 1888 é causada pelo ano do depósito legal da obra no Museu de Londres.

    Por conta de seu temperamento republicano ferrenho, Sousândrade nunca recebeu a devida atenção dos críticos da época. Por isso, a leitura crítica de “O Guesa” e de outros poemas, como “Harpas Selvagens” (1857) e “Novo Eden, poemeto da adolescência” (1893), acabou relegada dos círculos literários. A obra voltou ao debate somente na década de 1960.
    Em “O Guesa”, Sousândrade subverte
a lógica dos romances indianistas da época e narra a história de um índio da tribo colombiana muísca. A figura mitológica do panamericano errante, que viaja pelo mundo em busca da utopia de uma República moderna e multicultural, pode ser lida como um alter-ego de Sousândrade. 
    O autor queria ser grande, produzir uma obra única, como afirma Luiza. A começar pela alteração do próprio nome. De Sousa Andrade passou a assinar Sousândrade para que ficasse com onze letras, assim como Shakespeare. Luiza explica que a obra deve ser lida como uma biografia épica e existencial do autor. Órfão desde a infância, criado por tutores e autodidata, Sousândrade vendeu os escravos da fazenda paterna e se dedicou a conhecer outras culturas e escrever e reescrever seus versos. Tampouco o casamento realizado em São Luís, em 1861, e o nascimento da filha o impediram de continuar o périplo pela América. No épico, repleto de experimentalismo de linguagens e intertextos, os cantos II (ou “Dança do Tatuturema”) e X (ou “O inferno de Wall Street”) se destacam por terem sido escritos em limerick, como explica Luiza.
— O estilo livre do limerick se opõe à rigidez da métrica e caracteriza o tom jocoso e nonsense nos versos. Nestes cantos Sousândrade faz críticas ácidas à corte brasileira e ao sistema financeiro americano. Muito antes de Oswald de Andrade, ele põe na boca de D. João VI: “meu filho, toca a coroar” — diz Luiza, referindo-se ao tom sarcástico e vanguardista do autor, que antecipa a frase “Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça”, do Manifesto Antropófago de 1928.
De O Globo

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