terça-feira, 28 de agosto de 2012

Raul Seixas - "Nunca vou cansar de ser rebelde"

    De fora do "Faróis no Caos", livro de Ademir Assunção, a entrevista com Raul Seixas feita pelo jornalista em 1987 publicada no Caderno 2 do Estadão em 20 de fevereiro daquele ano é antológica. Sem autorização dos herdeiros de Raul a entrevista deixou de fazer parte do livro, mas está na rede. O texto foi publicado com o título original “Eu não quero ser Tancredo”. Raul Seixas morreu em 19 de agosto de 1989.  
Confira a entrevista de Ademir Assunção com Raul:
 
Neste seu novo disco, Uah-bap-lu-bap-lah-béin-bum, você está dizendo que parou de andar na contramão. Raul Seixas está cansado de ser rebelde?
Não, não cansei de ser rebelde, não. Nunca vou cansar de ser rebelde. Na realidade, continuo com o espírito da Sociedade Alternativa dentro do meu coração, certo? Porque é uma posição política, metafísica, ontológica. É como essa música que está tocando agora (refere-se à canção “Cowboy fora da lei”). Eu não quero ser cowboy, não quero ser John Wayne, não quero ser John Lennon, que morreu. Não quero ser aquele menino que morreu, como é que chama... nosso amigo, que ia ser prefeito... não, que ia ser presidente da República...
Tancredo?
Tancredo. Essa música é feita para o Tancredo... Então, estou me afastando dessa zorreta.
(...)
Quando você começou a cantar, a compor, o rock estava explodindo na América do Norte. Era uma coisa que assustava a sociedade. Na época, era o grito da juventude que estava descontente com as coisas. Hoje, o que assusta são as pessoas que não fazem rock. Todo mundo faz rock hoje...
Não, o rock’n’roll morreu em 1959. Morreu em 1959. Mas que loucura! Morreu em 1959, aí virou twist, Chubby Checker, aquela gordinha... Mas não é mais rock’n’roll. Rock’n’roll foi um movimento. Rock’n roll foi um todo, uma maneira comportamentista. E muito bonita. Não era só uma música. Era uma maneira de cuspir o chiclete fora. Eu estava assistindo outro dia Vidas amargas, com James Dean... Bicho, aquilo é forte pra caralho. Ele cuspia mesmo no chão.
E a sua ligação com o rock’n’roll já vinha...
Desde os nove anos de idade.
Nessa idade você já cuspia o chiclete fora?
Já cuspia o chiclete. Já. Tutti-frutti.
De hortelã você não gostava?
Não, não gostava. Tutti-frutti.
(...)
Você passou vinte anos alimentando a revolta de muita gente que não estava gostando do mundo em que estava vivendo. Hoje, numa letra deste seu novo disco você diz que fez um checape geral, o que te levou a ler Alice no País das Maravilhas. O que mudou?
Ao contrário. Continuo fazendo a mesma coisa. É só que as palavras é que mudam. Não se enganem. Vou morrer fazendo isso.
Você tem fé em grandes mudanças?
Sim.
O rock ainda é um dos grandes pavios dessas mudanças?
Vai ser sempre. E eu estou fazendo a capa do disco exatamente... aquelas capas de rock maluco. Aquelas porras de rock maluco. Ao-lou-em-lou-bin-bin-in-inhéim. Boto pra foder. E o rock meu... é uma coisa... Sou professor de filosofia, certo? Me formei em filosofia. E estudei latim pra aprender a ler Ovídio. E sou professor de inglês... shakespeariano... Cheio de cultura, né? Cheio de viadagem. Isso me deu tantos critérios de valores. Não me arrependo nem um nada.
Do blog Espelunca, de Ademir Assunção

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