sábado, 5 de agosto de 2017

ESTÁCIO DE JACAS NO PÉ E AULAS DE PORTUGUÊS - LEONARDO LICHOTE


Existe a Bahia de Caymmi. Existem as Minas Gerais de Milton. 
Existe o Pernambuco de Alceu. Mas poucas vezes, nesses, 
há uma declaração de pertencimento a um local que alcança a 
síntese profunda materializada por Luiz Melodia nos versos: 
“O Estácio/ Acalma o sentido/ Dos erros que eu faço”. 
Lançada por Maria Bethânia em 1972, “Estácio, holly Estácio” 
apresentava, no nascedouro do compositor, sua relação 
umbilical com o bairro onde cresceu — e do qual sua 
poética se tornaria filha.


Uma filiação declarada já no álbum de estreia, “Pérola Negra”,
 que trazia, além da canção citada acima, “Estácio, eu e você”. 
Ela não tinha nada óbvio, porém. Pelo contrário, a herança que 
sua música trazia do Estácio era tortuosa como os caminhos 
que levavam o moleque Melodia a matar aula na Escola Municipal 
Pedro Varella (demolida pelas obras do metrô) para ir pegar jacas 
na Rua Santa Alexandrina. Colheita feita fora do horário das 
aulas de português, que ele fazia questão de presenciar — 
anunciava-se a alma (e a língua) de poeta que sabia sentir 
o doce onde ele estivesse.

Melodia era um filho do Estácio que fugia à percepção — racista,
 se formos evitar eufemismos — de que um negro do Morro de 
São Carlos só podia fazer samba. Não que ele renegasse o legado
 do chão no qual a geração de Ismael Silva, Bide, Marçal, Heitor 
dos Prazeres e Brancura reformatou o samba na década de 1920. 
Entender a música de Melodia — o jeito de corpo carioca, negro, 
favelado, suburbano e (por que não?) sambista que ele imprimia 
à vanguarda do soul e do pop mundial e da MPB dos festivais que 
buscava rumos após o desfacelamento pós-1968 — também passa 
por entender que ele foi um menino que aos 10 anos recolhia sacos 
de cimento que, engomados e presos a latas, faziam as vezes de couro,
 num improviso de surdo de uma escola de samba na qual ele gostava 
de se imaginar. Que foi um adolescente que cresceu frequentando a 
quadra da Unidos de São Carlos (hoje Estácio de Sá, onde seu corpo 
foi velado).

“Cresci ouvindo samba”, ele disse em entrevista ao GLOBO em 2007, 
antes de completar com a ressalva: “Mas ouvia rádio, que trazia bolero, 
música nordestina, americana. E lembro-me das donas de casa, aos 
domingos, no São Carlos, limpando seus lares. Em cada um deles rolava 
um bolachão diferente. Ouvi de tudo, e minha música traz isso”.

Foi no Estácio, na adolescência, que Melodia aprendeu a beber Black 
Princess, sua cerveja favorita. Foi no Estácio que Melodia começou a 
tocar — aos 12 anos, pegava escondido de cima do armário a viola que 
seu pai, Oswaldo Melodia, usava para tocar na Igreja Batista do bairro, 
onde, aliás, Melodia gostava de explorar seu canto, nos hinos. Foi no 
Estácio que Melodia imaginou as roupas que desenhava para que sua 
mãe costurasse para ele. Foi no Estácio que Melodia se lançou na 
carreira musical, ao formar as bandas Filhos do Sol e Os Instantâneos. 
O mesmo Estácio que, como todo berço, seguiu acalmando o sentido de 
todos seus erros ao longo da vida. E, quando ouvíamos suas canções, 
dos nossos.

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